Histórias de amor tendem a ganharem contornos quase épicos quando contadas em mídias como o cinema e videogames. E mesmo obras slice of life, que buscam o realismo cotidiano, pecam muitas vezes nos floreios de suas personagens e situações. Florence, uma experiência interativa que mistura videogames com toques de histórias em quadrinhos, conseguiu chegar num bom equilíbrio entre história, interatividade e a representação do cotidiano na experiência do amor.
Ah, o amor…
Florence está no início de sua vida adulta. Recém-formada, está presa num emprego maçante. Sozinha, mas com uma mãe muito presente. Ela acorda todos os dias na última soneca do despertador do celular, escova dos dentes, veste a roupa do trabalho e enfrenta o transporte coletivo cheio enquanto se distrai nas redes sociais. É claro que toda essa irá se desfazer.

Krish é o coprotagonista do jogo. Ele é um violoncelista que entra na vida de Florence enquanto ela passeia pela cidade. Sua música se apossa de forma fulminante dos pensamentos e do coração da protagonista, atrelando o destino de ambos bem ali.
O jogo, após o primeiro encontro do casal que se formará, se desenrola nas idas e vindas de ambos e nos ajustes que se fazem necessários em suas vidas para que enfim se assentem em uma relação. O mundo cinza da protagonista começa a ganhar contornos coloridos, embalados pelas notas musicais dos bons sentimentos. Tudo contado em forma de um visual novel simples e natural.
Jogando Florence
Florence é um visual novel em que o jogador participa executando certas ações ao longo da história. O seu desfecho, no entanto, não muda de direção, independente do êxito na realização dessas tarefas. Esses momentos servem como um meio de vivenciarmos de forma ativa os altos e baixos do relacionamento de Florence e Krish, fazendo parte da experiência narrativa que o jogo deseja transmitir. E Florence faz isso de forma competente.
Nos momentos em que a protagonista está no trabalho, temos que agrupar números iguais, numa simulação do tédio que ela sente. Às vezes, como consequência de atribulações, não encontraremos o foco para tal. Nos diálogos e discussões do casal, montamos quebra-cabeças que surgem na tela. Nos momentos tensos, as peças são mais complicadas de encaixar. Uma forma sutil de representar as palavras duras e a perda de controle em uma briga.

Em outros momentos, mais lúdicos, retornamos à infância de Florence em suas lembranças. É quando passamos a entender melhor algumas das características e ações da Florence adulta. A relação frustrada da protagonista com seus desejos artísticos e a educação tradicional de uma mãe rígida. Como os quebra-cabeças nos diálogos do jogo, juntamos as peças que formam o cotidiano do presente da protagonista.
Importante destacar que a beleza da história não fica contida em si mesma. A arte do jogo é encantadora. As poucas e claras cores da paleta geral combinam com o traço e o tom do jogo. Transmitem com maestria todos os sentimentos dos personagens.
Enfim, humanos, desejamos sempre o final feliz na vida real. Ou deveríamos. A felicidade e o amor, no entanto, nem sempre estão em sintonia. E os desencontros não significam necessariamente o fim, mas o recomeço de maneiras diferentes em caminhos individuais. Florence mostra uma realidade de maneira sensível, com uma bela arte e trilha sonora. Com aproximadamente uma hora de duração, pode ser uma porta de entrada para os que desconhecem o gênero. Para os conhecedores, é uma experiência quase obrigatória.
Florence
Mountains, Annapurna
Integração criativa entre mecânicas e narrativa.
Direção de arte e trilha sonora que acompanham o desenrolar da história.
História linear.
Florence é uma experiência breve, mas profundamente humana, que traduz com delicadeza o ritmo e as contradições de um relacionamento real.
Jogado no PC via Steam.