Ilustração com título ‘Soul Gambler’. Homem de óculos é abraçado por mulher de pele azul‑clara e cabelo vermelho, que sussurra em seu ouvido. Fundo roxo com árvores retorcidas e figura idosa ao longe.

Soul Gambler | O visual novel encontra a literatura clássica

Soul Gambler é um jogo de Ilex Games, estúdio brasileiro. Siga-os no Instagram. Conheça outros jogos em seu site.


Não é novidade a interseção que os videogames possuem com a literatura. A última década foi marcada pela grande quantidade de games que foram transpostos para as páginas dos livros. Tomb Raider, Diablo, Dead Island, Hitman, World of Warcraft, Uncharted, Starcraft são alguns exemplos.

O caminho inverso também é possível. É quando a literatura se transforma em entretenimento digital, invadindo o mundo dos jogos. The Witcher talvez seja o exemplo mais famoso. Mas temos outros, que muitas vezes nem suspeitamos, como Parasite Eve e Metro 2033.

Soul Gambler também é um jogo que segue por esse caminho, transpondo uma obra literária para as telas dos videogames, embora não tenha obtido um resultado satisfatório.

Fausto?

Toda a promoção de Soul Gambler enfatiza sua história baseada em Fausto, de Goethe, obra-prima da literatura alemã. Desde o trailer até a sua descrição na Steam, passando pelas imagens promocionais, esse é o ponto em destaque. E é neste quesito que começam meus problemas com o jogo. Talvez minha sensibilidade artística não seja apurada o suficiente, mas não vi motivo para toda essa alardeada inspiração.

Em sua obra, Goethe narra a história de Fausto. Homem com muitas inquietações relacionadas aos conhecimentos do mundo (ou a falta deles), Fausto está prestes a colocar fim em sua vida. Neste momento, o diabo, com anuência de Deus (Jó mandou um abraço), oferece um acordo. Realizaria todos os desejos de Fausto em vida. Em troca, ficaria com sua alma. Sedento por conhecimento, Fausto aceita a oferta. Claro, um trato com o demônio nunca é uma boa ideia. De forma muito resumida, esta é a linha guia da história de Goethe.

Cena ilustrada com dois personagens sobre beiral alto olhando cidade em tons escuros. Céu laranja e vermelho com sol baixo. Um personagem inclina‑se pensativo; o outro fica ereto com chapéu e casaco.
Cenários bonitos

Soul Gambler, por sua vez, empresta alguns elementos disso tudo. No jogo, Fausto é um contador frustrado com seu emprego e vida em geral. E assim como seu xará literário, terá a oferta de pacto com uma entidade sobrenatural. No decorrer da história, em momentos chaves, Fausto poderá usar parte de sua alma como moeda de troca por benesses. Esse uso e o caminho percorrido pelo protagonista o levarão aos diferentes finais disponíveis no jogo.

Não entrarei nos pormenores da trama de Soul Gambler, mas excetuando o pano de fundo do pacto para a venda da alma, alguns elementos de ganância e inquietações gerais humanas, nada mais há da obra de Goethe. É como se eu fizesse um jogo sobre um porquinho candidato a prefeito do chiqueiro e o vendesse como inspirado em Revolução dos Bichos sem nenhuma outra ligação além do fato de ter um porco como personagem. Pareceu-me mais uma tentativa forçada de marketing.

Alguns pontos positivos, muitos negativos

Soul Gambler, contudo, vai além dessa alegada ligação com a obra de Goethe. Seu visual é um dos pontos fortes. Os cenários são bonitos e detalhados. As paisagens urbanas remetem ao nosso cotidiano. As mudanças de planos entre o real e o etéreo são marcantes e tornam o jogo atraente visualmente. A estética de quadrinhos com os balões de fala e pensamentos dos personagens é outro ponto alto da obra.

Como diferencial, podemos modificar o físico e a personalidade do personagem principal, como num RPG, embora de forma bem rudimentar. Logo no início, distribuímos seis pontos entre os atributos de saúde, capacidade de manipulação, inteligência e carisma de Fausto. De acordo com suas escolhas, a história caminha por lugares diferentes, o que é fundamental para alcançar todas as conquistas do jogo. É uma forma interessante de dar longevidade e ares de profundidade para a história. Infelizmente, os pontos positivos param por aí e são sabotados pelos pontos negativos.

Ilustração em bar com prateleiras cheias de garrafas, luzes coloridas e balcão com torneiras de chope. Casal se abraça perto do balcão enquanto bartender observa com caneca de cerveja.
Queria um beijo.

A trilha sonora não é das mais inspiradas. O loop das músicas é perceptível ao longo de todo o jogo e nos créditos finais fica tão claro que incomoda. O teclado não tem nenhuma função. O avanço dos diálogos só pode ser feito com cliques do mouse. Eles também não podem ser avançados de forma rápida, além de haver um incômodo atraso entre o clique e as trocas de balões. Isso não faz nenhum sentido, sobretudo em um jogo em que passamos 99% do tempo lendo. Inclusive, foi o que me desmotivou a alcançar todas as conquistas oferecidas pelos diferentes finais.

Finalizando, Soul Gambler possui uma estética atraente e artes bonitas. Peca, no entanto, em quase tudo no que se refere ao design para tornar o replay do jogo atraente. Além do incômodo que causa sua alegada inspiração literária. Numa visão geral, as falhas acabam se sobrepondo as suas qualidades.

Finalizando, Soul Gambler possui uma estética atraente e artes bonitas. Peca, no entanto, em quase tudo no que se refere ao design para tornar o replay do jogo atraente. Além do incômodo que causa sua alegada inspiração literária. Numa visão geral, as falhas acabam se sobrepondo as suas qualidades.


Soul Gambler
Ilex Games, Gamestorming

 Os cenários detalhados, a ambientação urbana e a transição entre o real e o etéreo tornam o jogo visualmente atraente.
 A possibilidade de distribuir pontos em características do protagonista cria rotas alternativas e tenta dar longevidade à experiência.
 Trilha sonora.

 Soul Gambler tem potencial estético e algumas boas ideias de estrutura narrativa, mas tropeça em execução e profundidade

Jogado no PC via Steam.

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