Virgil’s Purgatory ZX é um jogo de Amaweks, desenvolvedor, musicista e artista brasileiro. Visite seu blog e o siga no X e Instagram. Conheça outros jogos em seu portfólio online.
Nos refrãos escritos em uma página rota, perdida nos compartimentos infinitos do tempo, estará a minha história. Ao alcance da providência divina, em mãos aleatórias, um dia encontrará seu destino nas mentes dos que virão. Nesse momento, jazerei com a confiança de missão cumprida.
Périplo pelo purgatório
Quando vi as primeiras imagens de promoção de Virgil’s Purgatory ZX no Twitter, fiquei encantado. A paleta de cores limitada, com personagens se destacando em meio a um ambiente predominantemente vermelho, era, no mínimo, algo bem chamativo. Tendo adquirido um pouco de experiência com a plataforma ZX Spectrum através do jogo Devwill Too ZX, do mesmo desenvolvedor, fiquei empolgado com a perspectiva de me embrenhar em um novo mundo nesse microcomputador. E o dia chegou.
De início, preciso dizer que o impacto das imagens se multiplica com o jogo rodando. Os movimentos de Virgílio através das telas do mundo desgraçado são determinados. Suas andanças pelas diversas paisagens trazem uma sensação estranha de realidade em meio às claras limitações técnicas do hardware. Ele age como se nada pudesse detê-lo, nem mesmo as estranhas criaturas que desejam seu desespero eterno.
Virgílio prossegue, como que ignorando os poucos bits que o trazem à tona. Quando parece que a zona de conforto visual se aproxima, Virgil’s Purgatory ZX lança um novo impacto sobre a visão do jogador. O mundo se transforma, lavando o vermelho e trazendo para a tela o branco, porém não a paz esperada. A hostilidade permanece, assim como os desafios que tentam impedir o protagonista.
Vitória em vida, vingança em morte
Tolos, ousam tentar me separar dos pensamentos que me conduzem. Não percebem que o sangue ausente nas veias impregna as masmorras em que se arrastam de forma errante. É imparável o sujeito que busca a paz do descanso eterno. Ainda que ferido, persevero em meu caminho para conquistar o que me foi reservado.
Jogando Virgil’s Purgatory ZX
Virgil’s Purgatory ZX é um jogo simples, porém não simplório. Metroidvania em essência, usa de toda a capacidade do ZX Spectrum para oferecer ao jogador a quantidade de ambientes que se espera de um título do gênero. O inusitado está sempre à espera de quem o desafia. Mesmo a reutilização de telas através da jornada não diminui a sensação permanente de descoberta no purgatório em que Virgílio se encontra.
Virgílio, decapitado, começa repondo de forma instável o que lhe foi arrancado. Como algo temporário e dispensável, o jogador pode lançar a cabeça provisória sobre os inimigos em seu caminho. Esta é a característica mais inusitada de Virgil’s Purgatory ZX e a que lhe traz a essência.

Porém, o jogo exige um pouco mais de estratégia do jogador, pois não basta sair atirando em tudo o que se move. Alguns inimigos são imunes a sua arma. Nesses casos, o pulo e a fuga são as melhores soluções. Para isso, deve-se montar a estratégia baseada em suas movimentações pela tela. Contra os chefões, entretanto, não há alternativa que não cabeçadas certeiras e rápidas.
Aqui devo fazer uma observação com relação aos controles, algo que sempre me aflige em jogos modernos. Em Virgil’s Purgatory ZX, o controle de Virgílio e de seus ataques é bem refinado. Em nenhum momento senti que estava sendo derrotado por falhas nos comandos. Embora estivesse um pouco mais confortável devido a minha experiência anterior com Devwill Too ZX, foi bom confirmar a boa jogabilidade durante a jogatina.
Aliás, Virgil’s Purgatory ZX é complexo dentro de seu escopo. As idas e vindas durante a história não são fáceis. Em minha primeira tentativa, levei pouco mais de uma hora para alcançar o seu final. Na segunda aventura, mais seguro, baixei o tempo para aproximadamente quarenta minutos. Uma boa marca para um jogador quase casual. Para auxiliar o jogador, são oferecidas algumas melhorias clássicas dos videogames durante a aventura: pulo duplo, mais corações e efeito bumerangue para a cabeça de Virgílio. Ajuda indispensável para encontrar os itens necessários para prosseguir na história.
Descanso. Até quando?
Recuperado e lavado de minhas transgressões, ouço a eterna música em meus ouvidos recuperados. Sinto que adormeço enquanto o próprio Deus me acalma das batalhas recém-travadas. Entrego-me ao descanso finalmente, embora não saiba o que me reserva a eternidade.
Miscelânea agradável
Virgil’s Purgatory ZX é o resultado prático da soma de uma série de referências. Dentre elas, as mais óbvias são Divina Comédia e o cangaço brasileiro. Passa também por clássicos do cinema nacional e dos quadrinhos. As músicas e os textos do jogo também remetem ao cordel e à nordestinidade latente em nossa cultura.

E não se engane pensando que se trata de uma ode à cultura nacional, flertando com ares pedagógicos e ufanistas. Tudo em tela é comedido, moderado. As partes não tentam serem maiores do que o todo. Amaweks registrou em seu blog um pouco dessas referências e os objetivos ao usá-las. Vale a leitura.
Finalizando, fico contente por ter me embrenhado por esses becos do desenvolvimento brasileiro de jogos. São lugares que me proporcionam pérolas como Virgil’s Purgatory ZX.
Virgil’s Purgatory ZX
Amaweks
Estilo visual marcante.
Jogabilidade refinada
A reutilização de telas pode diminuir a sensação de exploração.
Virgil’s Purgatory ZX é uma experiência surpreendentemente rica dentro de um escopo técnico limitado, combinando referências culturais, estilo, desafio e personalidade.
Jogado no PC via itch.io.