Há aproximadamente 2250 anos, dentro das amplas fronteiras do Império Romano, vivia Tito Mácio Plauto. Este cidadão romano, após algumas empreitadas comerciais malsucedidas no ramo naval, encontrou-se em uma situação financeira delicada. Para se sustentar, passou a realizar trabalhos braçais como cenógrafo e carpinteiro para companhias teatrais do império.
Nesse novo ramo, Plauto despertou uma paixão pela dramaturgia tão arrebatadora que logo iniciou estudos sobre as obras teatrais realizadas na Grécia, que ditavam algumas modas para a sociedade romana na época. Com todo o conhecimento adquirido, passou da teoria à prática, escrevendo e produzindo as suas próprias peças. Essas obras atingiram grande popularidade e se espalharam por todos os domínios romanos.
Algumas de suas comédias, tão recontadas ao longo do tempo, são as mais antigas em língua latina que chegaram aos dias atuais. Casina é uma delas.

Caso você tenha chegado até este ponto do texto, não se assuste. Você não entrou por engano em uma cópia de algum artigo da Wikipédia. Verifique o cabeçalho, você está no Pedra Papel Pixel, que continua a ser um sítio internético dedicado aos videogames.
Quanto ao senhor Plauto, a quem dedicamos o início desse texto, é possível afirmar com razoável grau de certeza que há dois mil anos, quando ele caminhava por Roma e suas províncias, os jogos eletrônicos ainda não haviam sido inventados. A falta de energia elétrica era um problema crônico no império.
Partindo dessa conjectura, presumimos que Plauto nunca imaginou que uma de suas mais famosas obras, a comédia chamada Casina, seria transformada em um visual novel dois milênios após seu encontro com Tânatos. E é justamente de Casina, a visual novel, que trataremos aqui.
Uma comédia de dois mil anos
Obras antigas costumam causar algum tipo de estranhamento em novas audiências. O impacto das mudanças geracionais é perceptível na absorção de algumas formas de arte.
Faça um exercício. Traga à memória o último filme anterior aos anos 1970 que você assistiu. Uma música dos anos 1940, de qualquer estilo. Um livro do século 18 ou 19. Muito diferente dos que estamos habituados, não? Tão diferentes que alguns movimentos mais radicais defendem a censura de tais obras, indo além de uma bem-vinda contextualização, mas isso é um debate para outro momento.

Por hora, continuemos exercitando a criatividade. Imagine agora como seria jogar um visual novel baseada numa comédia de dois mil anos! Desnecessário dizer que o estilo sofreu profundas mudanças nesse longo período. Casina tem uma história divertida, mas é um produto de seu tempo, diferente da comédia atual, ainda que as peculiaridades humanas não tenham se alterado.
Em linhas gerais, Casina conta a história de Lysidamus, um velho homem que vive em Atenas com sua esposa Cleostrata. O velho se apaixona pela jovem e atraente serva Casina. Para mantê-la por perto e tê-la como sua amante, Lysidamus pretende casá-la com o seu servo Olympio. Cleostrata, claro, não está alheia às intenções de seu marido e planeja também casar Casina, mas com o seu próprio servo, chamado Chalinus. Dessa forma, impediria os intentos de Lysidamus. É a partir dessa troca de artimanhas que surge as situações cômicas da história de Casina.
A transposição do teatro para a visual novel, mídia adequada para a adaptação, foi bem executada pela Neoclassic Games. Por suas características, o gênero visual novel é adequado para uma adaptação fidedigna. Os ‘atores’ escalados para essa versão de Casina são expressivos, transmitindo de forma convincente os sentimentos causados pelas situações cômicas em que se encontram. A comicidade também é originada do contraste da história clássica interpretada por personagens visualmente construídos dentro das convenções atuais de design estilo anime. Uma receita com ingredientes diversos que obteve um prato harmonioso.
Embora os atores, os personagens e a trama sejam indiscutivelmente bons em sua vivacidade, cores e detalhes, o mesmo não pode ser dito das locações utilizadas nessa adaptação. Todos os planos de fundo são genéricos ao extremo e não me espantaria se fossem oriundos de algum repositório gratuito da internet. Eles apenas cumprem vagamente o papel de localizar a história na Grécia Antiga, com alguns clichês geográficos e culturais.

Em relação às questões sonoras, as músicas não têm nada de espetacular e, assim como os planos de fundo, não parecem serem composições originais para o jogo. A linha calma da trilha, porém, caminha de forma suave com a jogatina, mesmo que distante do imaginado para uma obra de tons cômicos. Outro ponto positivo de Casina é a total dublagem do jogo(dublagem em inglês com legendas em português), algo pouco visto em obras do gênero e que acentua o viés cômico do todo.
Casina também possui alguns deslizes que impactam diretamente na jogatina. Em minha seção de jogo, notei engasgos que não esperaria de uma visual novel, estilo conhecido por sua simplicidade. Algumas transições de cena sofreram com lentidões chatinhas, mas nada que impedisse de finalizar o jogo. Cabe ressaltar, no entanto, que não vi nenhum comentário nesse sentido nas análises do Steam. Sendo assim, não sei ao certo se se trata de algum problema pontual na instalação do jogo em meu computador ou alguma falha na otimização do jogo.
No fim, com alguns escorregões e muitos acertos, Casina é uma experiência recomendada aos apreciadores do gênero.
Casina: The Forgotten Comedy
Neoclassic Games
Adaptação criativa de uma obra clássica.
Dublagem completa em inglês, o que reforça a comicidade.
Planos de fundo genéricos e pouco inspirados.
Casina: The Forgotten Comedy consegue unir o charme de uma comédia de dois milênios com a linguagem atual dos visual novels e um toque de anime.
Jogado no PC via Steam.