Capa do livro com homem careca de terno preto e gravata vermelha segurando pistola com silenciador, sobre fundo vermelho; ao redor, cena de beco escuro com corpo no chão e corvos.

Livro | Hitman: A Condenação

Gosto de visitar feirões de livros. Para os que desconhecem a dinâmica, são lugares temporários que vendem livros bem baratos. Normalmente os encalhes e sobras de editoras e distribuidoras. Em minha última visita a um desses locais, encontrei um livro por um preço bem convidativo: dez reais. Foi assim que entrei no mundo de Hitman em sua versão literária. Hitman, a franquia de jogos, nunca despertou o meu interesse. Não me sinto atraído por histórias de clones assassinos. Mas assim como quando li o romance de Dead Island, fui positivamente surpreendido.

O livro de Hitman é um prelúdio para o jogo Hitman: Absolution, lançando em 2012 para Windows, Xbox 360 e PlayStation 3. Mas aqui, nesta humilde resenha, me concentro apenas no desenrolar do livro, já que, como dito, não joguei nenhum jogo da série.

Hitman: A Condenação

A trama literária começa com alguns detalhes sobre o abandono do Agente 47 em uma missão no Himalaia por seu contato, e talvez, a única pessoa a quem considerava uma amiga na Agência. Diana Burnwood, que até então demonstrava um zelo pelo bem-estar de 47, some do mapa, deixando o agente em situação delicada, quase morrendo no desenrolar da fatídica missão.

Homem careca de terno preto, camisa branca e gravata vermelha em pose de ação segurando duas pistolas diante de fundo vermelho.

Mas 47 não é o melhor agente por acaso. Sobrevivendo ao quase desastre, desaparece e passa a levar uma vida normal. Ou o mais próximo do normal que um assassino profissional pode levar. Isso, claro, até ser reencontrado pela Agência, que o convence a retornar com a promessa de encontrar Burnwood. Sua nova missão: assassinar a candidata à presidência dos Estados Unidos, Dana Linder, e o líder da seita religiosa mais popular da América, Charlie Wilkins.

A escrita

O livro intercala a história com dois tipos de narrativa: em terceira e em primeira pessoa. Esta última perspectiva acaba por humanizar o Agente 47, conhecido por sua frieza e falta de emoções. Estando dentro de seus pensamentos, conhecemos seus traumas, medos, vícios e um pouco do seu passado, que justifica seu modo de ser no presente. Para o leitor que, como eu, só tinha uma vaga noção do que se tratava o Agente, ou mesmo para quem já o conhecia dos jogos e dos filmes, acredito ser uma forma interessante de construção da personalidade de 47.

A escrita de Raymond Benson é fluída e consegue manter o ritmo da ação, mesmo nos momentos em que os pensamentos do Agente entram em foco. A troca de vestuário do Agente, marca registrada da série, está presente em algumas passagens do livro. Esses momentos de tensão são bem trabalhados, fugindo do que poderia se tornar um clichê da pessoa tentando manter o disfarce em meio a uma situação complicada. A trama da entrada de 47 na seita de Wilkins, os percalços para se manter insuspeito e as reviravoltas que permeiam a história acabaram por me manter virando as páginas até o final do livro.

Mesmo na primeira missão, que não se liga de forma direta à missão principal da história, a apresentação, por assim dizer, de 47 ao leitor, é tensa e mostra a forma de trabalhar do Agente.

“Vestindo um terno negro feito com fibra de lã da mais alta qualidade, uma camisa branca de algodão, luvas de couro negras e uma gravata vermelho carmim, 47 sabia que estava elegante. […] Com sua alta estatura, cabeça calva e lustrosa e uma enigmática tatuagem de código de barras na nuca, 47 era uma figura imponente. Sua aparência era apropriada para a ocasião, uma vez que a festa a bordo do iate de Fernandez era somente para convidados. […] O Agente 47 não se importava com Fernandez ou a festa. Seu único interesse era Hector Corado. A inteligência assegurou que o criminoso estaria a bordo como convidado especial de Fernandez.”

Ficção esbarrando na realidade

O segmento a seguir contém revelações da trama do livro.

Hitman: A Condenação, foi publicado no Brasil em 2013, época em que a política ainda não havia nos proporcionado decepções em escala mundial. Em suas páginas, porém, encontramos os Estados Unidos passando por uma grave convulsão social. O país está sendo assolado por um grupo terrorista interno que, a despeito dos atentados e assassinatos que comete, é apoiado por parcela considerável do povo. Os apoiadores atribuem ao grupo uma nova forma de política e combate à corrupção que julgam estar entranhado no governo de então.

Não é preciso um grande esforço para traçarmos um paralelo com a realidade dos últimos anos. Temos observado o surgimento de vários grupos que se aproveitam de momentos de insatisfação e protestos para sequestrarem a pauta política do país. Grupos que em sua maioria flertam perigosamente com o extremismo e o ódio.

E é nesse caldeirão de violência e ataque sistemático às instituições e às leis, de modo que nos tornamos insensíveis a certas práticas, que a democracia acaba por perecer. E, embora no livro o final seja a derrota das pretensões antidemocráticas, em nossa realidade temos um caminho de lutas a percorrer.

“Wilkins pretendia mudar os Estados Unidos para adequá-los às suas ideias. […] Ele tinha que se tornar o presidente e saturar o Congresso com o Primeiro Partido da América, e faltavam apenas seis dias para as eleições. Se ele conseguisse, os Estados Unidos poderiam ser palcos de uma verdadeira revolução. As leis que não agradassem ao partido seriam alteradas ou derrubadas, e uma nova legislação seria promulgada. […] Embora a população norte-americana não percebesse, ela estava prestes a eleger um candidato fascista.”


Hitman: A Condenação
Leya

Autor: Raymond Benson
Tradutor: Elton Mesquita

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