Livro | Dead Island

Como a maioria dos jogadores no já longínquo ano de 2011, assisti ao violento e emocionante trailer de Dead Island, apresentado pela Techland. O impacto do trailer em toda a comunidade gamer foi imenso. Basta lembrar o que Hideo Kojima disse em seu Twitter à época sobre o vídeo: “brilhante”. Concordo com o Kojima.

A partir desse trailer, Dead Island, que já estava em produção por cinco anos, passou a ser um dos jogos mais aguardados daquele ano. Após seu lançamento, recebeu análises favoráveis da crítica especializada, apesar da decepção de não possuir a atmosfera apresentada no trailer.

Uma história a ser contada

Este trailer foi meu único contato com o jogo em todos estes oito anos desde então. Até há algumas semanas, quando soube da existência de um livro de Dead Island. Comprei-o, confesso, imaginando que não seria uma grande obra. Mas ao contrário das expectativas, devo dizer que fui surpreendido pelo livro escrito por Mark Morris.

Paisagem costeira com prédio moderno curvo de vidro à beira‑mar, cercado por água turquesa, vegetação tropical e montanhas ao fundo.
Ilha de Banoi

Colocado isso, apesar da surpresa positiva, não espere alta literatura. O prólogo e os capítulos iniciais cumprem bem o papel de construírem o pano de fundo dos personagens que acompanharemos. O início também mostra alguns estranhos acontecimentos da ilha de Banoi de forma a atiçar nossa curiosidade para o desenrolar da trama.

Após o bom início, porém, Morris nos leva a uma sequência em série de clichês previsíveis em uma história de zumbis. Ou seja, espere encontrar muito falatório sobre vírus mortais, suas origens e grupos misteriosos em seu encalço.

Bons personagens

Quanto aos personagens, eles se revelam razoavelmente interessantes. Com o que nos é revelado em suas introduções, eles se mostram tipos diversos, com passados traumáticos e presentes quebrados. Há que se destacar aqui as fortes personagens femininas da história, que vão além de um amontoado de características masculinas em uma casca feminina, problema encontrado em muitas obras por aí.

No elenco principal, temos um rapper com a carreira decadente buscando uma última chance, uma ex-estrela do futebol afundado na depressão e drogas, uma policial que pede demissão ao aprender sob o submundo do poder e uma militar/espiã descontente com os rumos de sua carreira. Todos eles são jogados no epicentro de uma tragédia biológica. E voltando aos clichês citados acima, o motivo que leva à união desse grupo tão heterogêneo não é dos mais inspirados, cumprindo apenas razoavelmente a função de dar tração à história.

A trama, desde a chegada de parte do grupo à ilha até seu desfecho, apesar dos clichês, é atrativa. Morris consegue amarrar bem as diferentes etapas pelas quais o grupo passa até chegar à suposta salvação no final. Os personagens que vão se apresentando ao grupo, por vezes de forma temporária, são interessantes e possuem, alguns, leves pinceladas de complexidade. Isto os torna mais atrativos ao leitor, mesmo que nenhum deles sequer chegue próximo, em termos de profundidade, ao grupo principal. O que é razoável.

Muito sangue e combates

As descrições dos combates são viscerais, com detalhes por vezes incômodos da anatomia dos infectados durante e após as pelejas. A tensão é constante e os deslocamentos pela ilha são cheios de perigos, causados não apenas pelos zumbis, mas também pelos não infectados. Afinal, o ser humano consegue ser uma ameaça, transformado em zumbi ou não.

“Quase tarde demais, Sam percebeu que não havia três infectados no grupo que os atacou, mas quatro. O que estava ao fundo, uma criança pequena Kuruni, com 5 ou 6 anos, tinha conseguido se esgueirar sob o radar deles. Ela, evidentemente, havia escapado ilesa da saraivada de balas, não apenas porque tinha sido protegida pelo corpo dos três adultos, mas também porque a maioria dos projéteis passara sobre sua cabeça.

Ela se dirigia até eles agora, no entanto, rápida como um filhote de pantera, mas muito mais mortal. A criança saltou sobre a colina de zumbis mortos e estava quase sobre o grupo surpreso. Purna ergueu o fuzil e atirou bem quando a criança se lançou ao ar. O tiro arrancou a metade esquerda da cabeça e do rosto do zumbi em uma confusão de sangue e cérebro. O impacto fez a criança girar no ar, e Logan e Xian Mei saltaram para trás quando o corpo acertou a parede próxima com um ruído úmido e escorreu até o chão.”

O final muito aberto da história não é do tipo que me agrada. Mas creio que Morris tenha seguido a trama do jogo, apesar da oportunidade de dar um final mais satisfatório, tendo em outros pontos da trama elementos para enganchar uma continuação. Continuação que, acho, dificilmente virá, dado que a euforia sobre a série de jogos parece ter passado.

Publicado pela Galera, selo jovem da Record, o livro é hoje facilmente encontrado em promoções com descontos significativos. Apesar das ressalvas (não espere nada que vá além das histórias de zumbis já contadas), o livro é recomendado.


Dead Island
Galera Record

Autor: Mark Morris
Tradutora: Mariana Kohnert

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