Na metade dos anos 1990, o SBT começou a exibir o seriado Hércules, A Lendária Jornada, que se tornou um dos meus programas favoritos. Eu não perdia um único episódio. Não me importava se era reprise ou me incomodava com o horário (não é de hoje que o SBT muda sua grade constantemente). Se Hércules estava na televisão, eu estaria na frente dela. As histórias eram fantásticas e os personagens ultra carismáticos. Era muito divertido acompanhar as aventuras do semideus pela Grécia Antiga. Ainda hoje essa série continua guardada em um cantinho especial das minhas lembranças.

Nessa mesma época, fissurado pelo seriado, soube, de alguma maneira, que um filme da Disney sobre o grande Hércules estava no cinema. Eu enlouqueci. O objetivo de minha jovem vida passou a ser assistir ao filme do herói. No entanto, logo todo o meu desejo juvenil se desfez. Bastou ver um comercial do filme na TV. Em minha cabeça, era inacreditável a ousadia da Disney em fazer uma animação qualquer baseada em Hércules e não um filme épico com os fantásticos atores do meu seriado favorito. A decepção foi tão grande que até recentemente eu não havia consumido nenhum produto do Hércules da Disney. Fato que só mudou quando, aproveitando a última promoção da Steam, comprei o jogo que foi lançado para PlayStation quase simultaneamente ao filme.
Aventura nos games
Hércules chegou aos videogames em 1997, pouco mais de dois anos após o lançamento americano do PlayStation. Nessa época, os bons jogos da Disney do Super Nintendo e Mega Drive ainda estavam frescos na memória dos jogadores. Quackshot, Aladdin, Castle of Illusion e Aladin foram grandes sucessos da empresa do Mickey nos videogames. Não fugindo muito do então passado recente da companhia, Hércules, embora faça bom uso das capacidades de sua geração, tem na porção de jogabilidade 2D tradicional o seu grande chamariz.

Nesses segmentos de movimentação lateral, Hércules oferece ao jogador o básico do estabelecido nas gerações anteriores. O personagem pula sobre obstáculos, se agarra em outros, move objetos, ataca inimigos e busca segredos pelos cenários. Para derrotar seus inimigos, o herói conta com dois tipos de soco, um forte e outro fraco, e sua espada, cujos poderes podem ser aperfeiçoados de forma limitada com itens encontrados ao longo do caminho. Embora o jogo não seja difícil, é bom ficar de olho na barra de saúde do personagem. Como um semideus, Hércules está sujeito à morte. Busque sempre os revitalizadores de energia pelo cenário.
Em suas andanças laterais, o jogador perceberá que em determinados pontos existe a possibilidade de mudança no plano da ação, se aproximando ou se afastando da tela. Em alguns poucos momentos, essa alteração será essencial para a continuidade na fase. Esses caminhos alternativos também escondem muitas vidas extras e diferentes poderes para a sua arma. Esses recarregadores de poderes são importantes, pois eles são de uso limitado, sendo interessante guardá-los para chefões ou outros inimigos mais fortes. São nessas alternâncias de plano também que são encontradas as letras que formam o nome Hércules. Hey, eu já vi isso em outro lugar! Há, ainda, quatro vasos por fase que revelam um password para ser usado na tela inicial e reiniciar o jogo na fase em questão. Uma decisão, digamos, bem questionável.
Visual, controle e outras coisinhas mais
O visual de Hércules é deslumbrante. Claro, não é de se esperar menos de um produto derivado de uma das animações principais da Disney. Os desenvolvedores tiveram um capricho muito grande nos cenários do jogo e também nos personagens em tela. Jogá-lo é ter quase uma experiência de assistir ao filme. Tudo que se vê é muito bem animado. Até mesmo os personagens secundários reagem a praticamente todas as ações do herói. Toda essa riqueza de detalhes se mantém nas fases runner, em que Hércules se movimenta automaticamente. Nesses momentos, apenas tratamos de desviar dos obstáculos que surgem, controlando a velocidade do personagem pelos caminhos.

Nestes segmentos à la Crash Bandicoot, o controle fica um pouco menos preciso, com ações devendo serem planejadas com alguma antecedência, principalmente a escolha do lado a ser seguido nas bifurcações que surgem. Nas fases de progressão lateral, todos os comandos respondem de maneira satisfatória. Apenas uma leve irritação na mudança de direção do Hércules, que às vezes demora a acontecer. Mas, sendo um jogo fácil, nada que atrapalhe a diversão ou o avançar na história. Aliás, com relação à dificuldade, são três disponíveis, mas jogando na mais acessível, as duas últimas fases não ficam disponíveis.

O som do jogo é outro ponto de destaque. Fazendo bom uso da mídia do PlayStation, Hércules conta com várias canções do filme, embora não completas. Os diálogos também são dublados pelos mesmos atores do filme, contado com cenas exclusivas para o game. O CD já era inegavelmente um grande êxito da geração.
Curto, Hércules pode ser finalizado em pouco mais de uma hora. Proporciona boas memórias e diversão. É quase como jogar o filme. Aliás, fiquei com muita vontade de assistir a animação depois do jogo.
Disney’s Hercules
Disney Interactive, Disney
Animações caprichadas que traduzem fielmente o charme do filme.
Jogabilidade 2D sólida.
As fases no estilo runner apresentam controle menos preciso, exigindo decisões rápidas que nem sempre respondem como esperado.
Hercules, apesar de ser curto e simples, entrega charme, boa jogabilidade e uma direção artística exemplar. Uma experiência marcante para quem aprecia clássicos da era 32-bit.
Jogado no PC via Steam.