Colagem de várias capas de jogos em grade com faixa diagonal branca exibindo a palavra ‘CENSURADO’ em destaque.

Mastercard, Visa e PayPal decidem o que você pode jogar

A Valve promoveu a retirada de dezenas de jogos de conteúdo adulto do catálogo da Steam na última semana. Essa remoção coincidiu com a discreta introdução de uma nova regra da plataforma, que diz, no item 15 da seção de regulamentos e diretrizes, o que não se deve publicar no Steam (em tradução livre):

“Conteúdo que possa violar as regras e normas definidas pelos processadores de pagamento do Steam, operadoras de cartões de crédito, bancos e/ou provedores de internet. Em particular, determinados tipos de conteúdo voltados exclusivamente ao público adulto.”

Note que não há uma explicação clara do que são os “determinados tipos de conteúdo voltados ao público adulto”. A regra vaga preocupa os desenvolvedores de jogos que atuam na plataforma, e não apenas os afetados pela censura inicial. Afinal, agora novas camadas de restrição, proibição e controle serão adicionadas ao processo criativo e artístico de todos os envolvidos na produção de um jogo. Camadas estas vindas de um censor antes quase invisível e que paira sobre todos os interessados em videogames. O intermediário inevitável que une criadores, vendedores e consumidores e que está nesse momento em sua carteira, seja ela física ou digital: a operadora do seu cartão de crédito.

Toda a movimentação da Valve se deu pela ação dessas operadoras financeiras. Em resumo, se o jogo que você deseja jogar ferir os sentimentos de Visa, Mastercard ou PayPal, eu lamento, procure outra forma de entretenimento. Não importa se você é um adulto funcional, não importa se você tem os meios para pagar pelo que deseja. Não deveria, mas infelizmente esses processadores de pagamento são o elo mais forte de toda a corrente. São eles que permitem a sua compra na Steam, são eles que entregam o seu dinheiro à Valve. É mais fácil, nesse momento (e até quando não sei), Gabe Newell ceder aos caprichos dessas companhias e manter o dinheiro entrando em sua conta bancária do que estar ao lado dos desenvolvedores desses jogos adultos. Afinal, iates são bem caros.

Se indispor com os controladores de nossas vidas financeiras não compensa quando os jogos afetados por essa censura devem representar uma fração ínfima, praticamente microscópica, da receita da Valve. Mas até quando? O que nos assegura que apenas jogos com temáticas sexuais explícitas e outros temas tabu estarão na mira dos cartões de crédito? E quando as garras censórias chegarem às visual novels com apenas sugestões de elementos sexuais? Ou quando começarem a incomodar jogos com produções milionárias, como GTA ou Cyberpunk? A nova regra imposta pela Valve a mando dessas empresas é vaga o suficiente para que produções com uma mínima camada de erotismo e sexualidade sejam enquadradas por ela.

Primeiro levaram os jogos adultos,
Mas eu não me importei com isso,
Eu não os jogava.

Como se trata de uma mudança recente, não se sabe se novas levas de retiradas de jogos da plataforma virão. Alguns jogos similares aos removidos ainda estão disponíveis para compra. Aguardemos os próximos capítulos dessa história. A única certeza que temos é de que a Mastercard, Visa, PayPal ou similares não deveriam poder interferir no conteúdo dos jogos que podemos, ou não, comprar.

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