Meu primeiro videogame foi um Dynavision III Radical, um dos muitos clones de NES vendidos no Brasil. Com ele, fui muito feliz jogando Super Mario Bros. por incontáveis vezes. O suficiente para decorar cada pixel do jogo e descobrir todos os seus segredos. Era uma época em que não havia muitos meios de se informar sobre videogames. Toda informação vinha dos coleguinhas da escola e suas histórias repletas de exageros e seus tios que moravam no Japão (a maioria deles eram funcionários da Nintendo). As coisas naquele início dos anos 90 eram mais lentas e um pouquinho repetitivas.
Alguns anos depois, ganhei um Super Nintendo. Foi quando o meu mundinho se expandiu com o incrível Super Mario World. Passei outras centenas de horas com o bigodudo até finalmente conseguir ver tudo o que estava no manual do jogo e todos os inimigos apresentados ao final da jogatina. Nessa época, passei a ser frequentador assíduo da locadora do bairro. Posso dizer que experimentei uma boa amostra dos clássicos disponíveis na biblioteca do console. Cada final de semana era uma nova experiência, principalmente com jogos de plataforma.
Passados mais alguns anos, é claro que a vontade de trocar o videogame estava inundando cada partícula da minha existência. Podendo me informar melhor com as revistas que comprava na banca e conhecendo as novidades que, mesmo com um certo atraso, chegavam à locadora do bairro, já estava a par da nova geração de consoles.
Obviamente, tendo vivido no mundo da Nintendo em toda a minha então curta vida gamística, naturalmente o meu desejo era pelo maravilhoso Nintendo 64. Aquele videogame cheio de cores diferentes já estava nas prateleiras das lojas e estampava várias páginas das revistas que eu consumia como um viciado. Parafraseando o célebre slogan marqueteiro, era ‘Nintendo ou nada’!

Com o meu objeto de desejo aparecendo por todos os lados, comecei o processo de convencer minha mãe de que eu merecia ganhar um brinquedo tão caro novamente. Foi uma longa jornada, mas finalmente consegui arrancar dela uma promessa de que ganharia meu Nintendo 64 no Natal, desde que aceitasse me desfazer do Super Nintendo no processo. É claro que aceitei, com um Nintendo 64, o ápice dos videogames, eu não precisaria de mais nada pelo resto da minha vida (inocente, foi o que eu pensei).
Todos conhecem o sentimento de quem espera ansiosamente por algo muito querido. E eu estava mergulhado até a cabeça nele. Minha vida passou a ser contar os minutos para a chegada do grande dia. A partir dali o Super Nintendo ficou esquecido num canto da estante. Enquanto isso, eu lia vorazmente as minhas revistas, conhecendo cada título e montando uma lista de jogos a serem jogados no Natal que se aproximava. E podem falar o que quiserem, mas o Nintendo 64 tinha um monte de jogos incríveis. O Mario, que passei a vida vendo caminhar de lado, estava agora solto em um mágico mundo tridimensional. Zelda, que confesso, pouco havia jogado no Super Nintendo, recebia elogios e mais elogios de todos os lados. Pokémon, que dominava as manhãs da televisão, também já tinha seu jogo de batalhas em uma arena. Aquilo parecia incrível! Havia até a promessa de um jogo de South Park que seria todo legendado em português. Uau, aquele final de ano seria demais!
Já tinha todo o cronograma de jogatina preparado na cabeça. Sabia qual jogo eu imploraria para minha mãe comprar junto com o videogame e decorei todos os cartuchos de Nintendo 64 disponíveis na locadora, que não eram muitos. Mas, claro, por mais preparado que se esteja, as coisas podem tomar outro rumo. Todo esse meu planejamento mudou quando eu comprei a revista Nintendo World nº 9. Era a edição com Star Wars: Episode I Racer estampado na capa. E sim, foi amor à primeira vista. Eu lia e relia todas as promessas que eram feitas para o jogo e em minha cabeça aquele seria a melhor experiência de corrida de todos os tempos. As imagens que ilustravam a matéria eram fascinantes. Desde aquele instante, passei cada minuto sonhando com o momento em que estaria deslizando com meu Pod Racer pelas areias de Tatooine nas férias do final do ano com o meu exótico controle de Nintendo 64. O que é estranho, já que até então eu nunca tinha assistido a um filme da famosa franquia espacial.

Ok, devo confessar ainda hoje eu nunca assisti a nenhum filme de Guerra nas Estrelas (é assim que o filme é conhecido pelos velhos). Na verdade, mesmo Star Wars: Episode I Racer, o esperado jogo para o Natal de décadas atrás, eu joguei apenas recentemente, e foi através da Steam. Pois é, não apenas esse plano foi frustrado. Eu não ganhei o Nintendo 64 naquele fatídico final de ano. Contudo, não é uma história triste. A minha mãe foi convencida pelo vendedor da loja de eletrônicos (que existe até hoje!) que o melhor videogame era o PlayStation, pois os jogos eram infinitamente mais baratos (afinal, piratas). Eu até hoje não sei se o vendedor fez uma sugestão sincera para a minha mãe ou apenas não tinha o Nintendo 64 naquele momento para vender. O fato é que naquele final de ano, e nos muitos outros que viriam, eu tive a companhia do primeiro PlayStation e muitos, muitos CDs piratas. Miyamoto certamente ficou triste, pois ali o mundo perdeu um nintendista.
Finalmente, jogando Star Wars: Episode I Racer
Existem muitos bons e conhecidos jogos do passado que merecem uma oportunidade de chegarem às plataformas atuais. Pense na quantidade de jogos presos em seus consoles originais, disponíveis apenas em mídias físicas caríssimas ou, obviamente, meios alternativos. É sempre bom ver joias do passado se tornando acessíveis. Eu nunca imaginaria, porém, que Star Wars: Episode I Racer estaria numa lista de possíveis jogos a serem resgatados. Veja bem, não estou achando ruim, pelo contrário, afinal, foi um jogo que me marcou mesmo sem eu tê-lo jogado. Só me parece um pouco aleatório mesmo.
Mas do que se trata Star Wars: Episode I Racer? Bem, esse é um jogo inteiro feito baseado numa pequena parte do filme A Ameaça Fantasma, mais precisamente nas cenas de corridas de Pod, introduzidas por George Lucas no primeiro filme da segunda trilogia da saga. Como eu disse, não assisti a nenhum dos filmes, então não tenho nenhum sentimento relacionado às tramas que envolvam as obras do cinema. Claro, sendo Star Wars um ícone da cultura popular, estou familiarizado com alguns personagens, localidades, inimigos, naves e afins, mas apenas o básico do básico. E é o suficiente para desfrutar de um bom jogo de corrida.

O jogo não é um remaster ou uma nova versão, ele é quase exatamente o mesmo jogo de 22 anos atrás. Quase porque ele recebeu alguns praticamente imperceptíveis retoques para se tornar minimamente palatável aos hardwares atuais, como suporte HD e um menu remodelado. Nada mais acrescentado e nada retirado (que eu saiba). É uma experiência de sentir um pouco da vibe do passado, com todos os seus ônus e bônus, mas é possível entender por que o jogo foi trazido do mundo dos praticamente esquecidos.
São mais de vinte pilotos, mas a maior parte terá que ser desbloqueada, que competem em oito planetas famosos (presumo) da franquia. Há vários circuitos em cada planeta e quatro modalidades de competição: Amateur, Semi-pro, Galactic e Invitational. As duas primeiras categorias são muito fáceis, com algum desafio de verdade sendo imposto ao jogador apenas na última etapa. Esse é um ponto negativo. Na maioria das corridas você assume a liderança logo na primeira volta e passa todo o tempo restante apenas dirigindo seu Pod sem nenhuma ameaça adversária. Como as corridas são longas, elas acabam se tornando monótonas. O que é um pouco paradoxal, já que a sensação de velocidade dos Pods é boa, mas acaba sendo velocidade aliada à solidão. Quase uma road trip.

Um pouco de ação virá nas corridas mais avançadas, próximas às finais dos campeonatos. As melhorias disponíveis para seu Pod, no entanto, vão novamente deixando as coisas um pouco menos desafiadoras. Você pode comprá-las com as recompensas obtidas nas corridas ou ao vasculhar o ferro-velho em busca de tralhas para o seu veículo. Há também equipamentos que deixam seu piloto mais habilidoso. Todas essas melhorias se desgastam com o ritmo das corridas, obrigando o jogador a adquiri-las novamente, sendo necessários upgrades específicos para prolongar a vida útil dos equipamentos.
O controle do Pod é bem competente e requer pouco treino para ser dominado. Quando você pega o jeito, deslizar pelas curvas arenosas de planetas longínquos se torna uma tarefa bem divertida. Uma pena que eu não tive a oportunidade de jogá-lo com um controle de Nintendo 64. Tudo fica melhor com um controle de Nintendo 64 (contém ironia).
Miscelânea
O visual possui o charme característico dos jogos da sua época. Os Pods passam a sensação de serem máquinas incrivelmente rápidas e o estilo de biga futurista casa bem com o aspecto geral dos veículos da série de filmes. Falando nos filmes, algumas cenas (em baixíssima resolução) são vistas esporadicamente ao longo da jogatina.

O som e músicas também possuem o padrão de qualidade da franquia, à despeito da baixa qualidade em que são apresentadas no jogo. Não sei dizer a proporção entre músicas da franquia e músicas originais (se é que existem), mas são todas no estilo épico de Star Wars. A música que toca no menu principal é especialmente boa. Me peguei parado às vezes antes de escolher alguma opção apenas a apreciando. É uma daquelas trilhas que podem ser ouvidas fora do contexto do jogo tranquilamente.
Posso agora finalmente dizer que desfrutei daquele jogo tão desejado de décadas atrás e que a experiência geral foi boa. Sinto que, na linha do tempo alternativa em que eu ganhei aquele Nintendo 64, eu me diverti bastante com esse jogo, lá no chão da sala da casa da minha infância, revezando o controle com meus amigos e bebendo refrigerante.
Star Wars: Episode I Racer
LucasArts, Lucasfilm, Disney
A movimentação dos Pods transmite muito bem a ideia de máquinas muito rápidas.
Mesmo sem ser um fã da franquia, é fácil se envolver graças às trilhas épicas e aos cenários clássicos.
A dificuldade desequilibrada prejudica o ritmo, grande parte das corridas iniciais é excessivamente fácil, tornando muitas pistas longas monótonas.
Star Wars: Episode I Racer permanece uma cápsula do tempo, sendo simples, veloz e com uma identidade muito marcante. Não é perfeito, mas é fácil entender por que marcou tantos jogadores.
Jogado no PC via Steam.